terça-feira, 9 de novembro de 2010

Final Feliz

Não é possível que os finais felizes só existam nos filmes e novelas. Não, isso não é possível. E nada vai conseguir convencê-la do contrário. E nem adianta dizer que "se não deu certo é porque ainda não é o fim" porque a história do filme e da novela nunca tem fim. É claro que existe uma continuação para aquele ponto onde termina. Para tudo há. Para ela, até para a morte há.
E ela se questionava isso quase todos os dias antes de dormir. Quase porque tinha dias em que existiam alguns anestésicos que a faziam esquecer desse assunto por algumas curtas e finitas horas.
Ela não se sentia triste. Não, isso não. Mas também não se sentia completamente feliz. Existia sempre um vazio que nunca era preenchido. E se sentindo contrária ao que aparentava, descobria que as pessoas acreditavam verdadeira e cegamente no que viam.
É claro que ela se sentia aliviada por não parecer uma "barbie dentro da caixa"* rotulada e amassada. Mas, ao mesmo tempo, perguntava se as coisas deveriam ser realmente assim.
-Talvez o final feliz não tenha chegado porque todos têm a certeza de que já estou vivendo a parte que vem depois do final feliz.
Mas ela não conseguia descobrir o que fazer para mudar esta situação. Ela teria de nascer denovo e perder o sorriso dos lábios, o brilho nos olhos, a alegria contagiante e o jeito espontâneo de encarar a vida. E já que nascer denovo estava completamente fora do horizonte do possível, ela continuava tentando encontrar uma maneira de fazer com que o seu final feliz enfim chegasse.
E foi pensando em seus inúmeros recomeços, que ela descobriu que ninguém precisa de um final feliz para continuar. Foi assim que ela lembrou que não existe incentivo maior que a dor. Sim, porque é só quando se sente dor que surge a vontade de que ela passe o mais rápido possível. Só depois de passarmos por uma experiência sabemos se queremos ou não repeti-la. E, sinceramente, empenhamo-nos mais quando a resposta é negativa do que quando positiva.
E foi assim que ela descobriu e identificou os inúmeros finais felizes que já aconteceram em sua vida, que deram início a inúmeras continuações. E são as continuações que muitas vezes não têm seus finais felizes, nos deixando assim, como ela se sentia... com aquele vazio que a faz querer viver, novamente, um final feliz. Como se aquele fosse o último de sua vida.
E ela então adormece certa de que já realmente pode ter tido seu final feliz. Mas não pense você que amanhã, antes de dormir, ela não vai pensar nisso mais uma vez. Será assim até que o vazio se preencha e voltará a ser quando ele resolver aparecer novamente, como um ciclo vicioso.
*Expressão dedicada a Marielly Martins. Que talvez também mereça estas palavras.

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